A Arte Gótica





A arquitetura gótica no século XII

  • Vista parcial do interior da cabeceira da igreja de Saint­Denis. Observe as abóbadas de nervura, o uso de pilares de sustentação, a ausência de grossas paredes e a introdução de grandes janelas de vidro
  • Catedral de Notre-Dame de Paris (iniciada em 1160)
  • Vista da nave central da catedral de Notre-Dame de Laon ( segunda metade do século XII)

   No século XII tem início uma economia fundamentada no comércio. Isso faz com que o centro da vida social se desloque do campo para as cidades e apareça a burguesia urbana.

    Novamente é a cidade o lugar onde as pessoas se encontram, trocam informações e ampliam seus contatos. Como vimos, na primitiva Idade Média o centro da vida social estava no campo e eram os mosteiros os locais de desenvolvimento intelectual e artístico. Agora, outra vez, é a cidade que será renovadora dos conhecimentos, da arte e da própria organização social.

    No começo do século XII, a arquitetura predominante ainda é a românica, mas já começam a aparecer as primeiras mudanças que conduzirão a uma revolução profunda na arte de projetar e construir gran­des edifícios.

    No século XVI, essa nova arquitetura foi chamada desdenhosamente de gótica pelos estudiosos, que a consideravam de aparência tão bárbara que poderia ter sido criada pelos godos, povo que invadiu o Império Romano e destruiu muitas obras da antiga civilização romana. Mais tarde, o nome gótico perdeu seu caráter depreciativo e ficou definitivamente ligado à arquitetura dos arcos ogivais.

    A nova maneira de construir apareceu pela pri­meira vez na França, na edificação da abadia -Saint­Denis, por volta de 1140.

    A primeira diferença que notamos entre uma igreja gótica e uma românica é a fachada. Enquanto, de modo geral, à igreja românica apresenta um único portal, a igreja gótica - como Saint-Denis, por exemplo - tem três portais que dão acesso às três naves do interior da igreja: a nave central e as duas naves laterais.

    Na fachada da abadia de Saint-Denis, os portais laterais eram continuados por altas torres. O portal central tem, acima dos frisos que emolduram o tímpano, uma grande janela, acima da qual há uma outra, redonda, chamada rosácea. A rosácea é um elemento arquitetônico muito característico do estilo gótico e está presente em quase todas as igrejas construídas entre os séculos XII e XIV.

    Entretanto, a característica mais importante da arquitetura gótica é a abóbada de nervuras; ela difere muito da abóbada de arestas da arquitetura românica, porque deixa visíveis os arcos que formam sua estrutura

    O que permitiu a construção desse novo tipo de abóbada foi o arco ogival, consequência imediata do emprego dos arcos ogivais foi a possibilida­de de construir igrejas mais altas. Outro recurso arquitetônico usado no estilo gótico foram os pilares, chamados tecnicamente de suportes de apoio, dispostos em espaços bem regulares. Em Saint-Denis, essa técnica de construção foi usa­da na cabeceira da igreja, ou chevet, como chamam os franceses. A consequência estética mais importante desse novo ponto de apoio da construção foi a substituição das sólidas paredes com janelas estreitas, do estilo românico, pela combinação de pequenas áreas de paredes com grandes áreas preenchidas por vidros coloridos e trabalhados.

    Mas foi a catedral de Notre-Dame de Paris que introduziu um novo recurso técnico: o arcobotante. Esse arco transmite a pressão de uma abóbada da parte superior de uma parede para os contrafortes externos. Isso fez com que as paredes laterais não tivessem mais a função de sustentar as abóbadas. Assim, o edifício gótico pôde abusar do emprego das grandes aberturas preenchidas com belíssimos vitrais. 



A Arquitetura gótica no século XIII

  • Vista interna da cabeceira da Sainte-Chapelle, Paris 
(1243-1246).
  • EI isabethkirche, Marburgo 
(1235-1283).
  • Coro da capela do King's College. Cambridge (1446-1515).

A Sainte-Chapelle
    O gótico francês da segunda metade do século XIII recebeu o nome de rayonnant (radiante), por causa do rendilhado das grandes rosá­ceas e das delgadas e delicadas colunas combinadas com amplas áreas de vitrais.
O mais belo exemplo do estilo radiante é a Sainte-Chapelle, cons­truída entre 1243 e 1246 no palácio real da corte de Luís IX, em Paris. O trabalho dos vitrais e a harmonia das colunas revestidas de dourado dão à arquitetura uma grande semelhança com os trabalhos filigrana­dos em metal e esmalte dos relicários medievais.


O gótico alemão


    No século XIII, a Alemanha também desenvolveu um estilo góti­co com características muito próprias. Um exemplo típico dessa criação arquitetônica é a Elisabethkirche, em Marburgo, cuja construção foi ini­ciada em 1235.
A planta apresenta uma igreja cruciforme, mas os braços do tran­septo têm o mesmo comprimento do braço do coro. Tanto as extremi­dades do coro quanto as do transepto são arredondadas, formando ab­sides como no estilo românico.
Internamente, as naves laterais têm a mesma altura da nave cen­tral. A parede da nave central tem uma única e alta arcada, mas as na­ves laterais têm dois níveis com grandes janelas ogivais.
    Nesta igreja, como as naves laterais e a nave central têm a mesma altura, são desnecessários os arcobotantes. A ausência desses arcos marca a diferença entre a igreja de Marburgo e o gótico francês do século XIII. E, apesar de externamente a construção ser um edifício compacto, existe nele um aspecto de leveza, graças às linhas verticais dos contrafortes e ao rendilhado das grandes janelas ogivais.

    As últimas expressões da arquitetura gótica datam dos séculos XIV e XV. Nos edifícios dessa época, o elemento que desperta maior interesse são as abóbadas trabalhadas com um trançado de nervuras.
    No século XV, o estilo gótico deixou de ser exclusivo dos edifícios religiosos, transferindo-se também para residências particulares, como palácio conhecido como Ca' d'Oro, construído por Matteo Reverti, entre 1422 e 1440, em Veneza. 

Escultura, Pintura e manuscritos góticos

  • avaleiro, catedral de Bamberg 
(cerca de 1235). e obre Uta, catedral de Naumburg 
( esculpida depois de 1249).
  • Massacre dos e fuga para o Egito. Ilustrações de uma página do Saltério de Ingeborg ( cerca de 1195). Museu 8ondé, Chantilly.
  • erusalém Celestial. Ilustração da Bíblia de Toledo (cerca de 
1226-1234). The Pierpont Morgan Library, Nova York.
  • Madona 
Entronizada 
(1295-1300), de Cimabue. Dimensões: 
427 cm x 276 cm. Museu do Louvre, Paris.

Escultura

    De um modo geral, a escultura do período gótico estava associada à arquitetura. Nos tímpanos dos portais, nos umbrais ou no interior das grandes igrejas, os trabalhos de escultura enriqueceram artisticamente as construções e documentaram, na pedra, os aspectos da vida humana que as pessoas mais valorizavam na época.
 
Pintura
 
    A pintura gótica desenvolveu-se nos séculos XIII, XIV e início do século XV, quando começou a ganhar novas características que prenunciam o Renascimento. Sua principal particularidade foi a procura do realismo na representação dos seres que compunham as obras pintadas. No século XIII, o pintor mais importante é Giovanni Gualteri, conhecido como Cimabue. O seu trabalho ainda é influenciado pelos mosaicos e ícones bizantinos, mas já existe uma nítida preocupação com realismo das figuras humanas. O artista procura dar algum movimento às figuras dos anjos e santos através da postura dos corpos e do drapea­do das roupas. Entretanto, ainda não consegue realizar plenamente a ilusão da profundidade do espaço.
    Cimabue teve o mérito histórico de ser o descobridor do jovem pastor Giotto, de quem foi mestre durante dez anos, em Florença.

Pouca coisa é conhecida a respeito da vida de Ambrogiotto Bon­done, conhecido como Giotto. Consta que nasceu em 1266, numa pequena aldeia perto de Florença, e que faleceu na própria Florença, em 1337. Viveu sua infância entre os campos e as ovelhas de seu pai. Segundo a tradição, ainda menino teve seus desenhos apreciados por Cimabue, que acabou sendo o seu iniciador na arte da pintura.
    A característica principal da pintura de Giotto foi a identificação da figura dos santos com os seres humanos de aparência bem comum. E esses santos com ar de homem comum eram o ser mais importante das cenas que pintava, ocupando sempre posição de destaque na pintura. Assim, em obras como o Retiro de São Joaquim entre os Pastores, ou lamento ante Cristo Morto, por exemplo, as figuras humanas são maiores do que as árvores e quase se igualam, em altura, às montanhas que compõem a paisagem.
    Mas além dos grandes murais de Giotto, que recobriam as paredes das igrejas, a pintura gótica foi feita também nos quadros de menores proporções e nos retábulos. Um retábulo consiste em dois, três, quatro ou mais painéis que podem ser fechados uns sobre os outros e abertos durante as celebra­ções religiosas. Conforme o número de painéis, o retábulo recebe um nome especial. Se possui dois painéis, ele se chama díptico; com três, ele é um tríptico; e com quatro ou mais, é um políptico.

    Existe um políptico famoso que se preservou completo até 1934, quando dois painéis foram roubados e substituídos por cópias modernas. É o chamado retábulo do Cordeiro Místico, que foi realizado entre 1426 e 1432 por pintores flamengos - os irmãos Van Eyck - para a igreja de São Bavão, em Gand, na Bélgica. No retábulo do Cordeiro Místico é possível observar a influência da arte da ilustração do manuscrito, pois são evidentes o espírito de minúcia e a preocupação com os detalhes das roupas das figuras, dos adornos das cabeças ou do elementos da natureza.         Mas, por outro lado, é possível observar também a superação do espírito da miniatura, pois os artistas abrem o universo da pintura para o mundo exterior, e revelam os efeitos que as diferentes distâncias e a própria atmosfera causam na percepção visual, dos seres representados.

    São essas conquistas realizadas por jan Van Eyck (1390-1441) e seu irmão Hubert Van Eyck (1366-1426) que permitem afirmar que as suas obras inauguram a fase renascentista, da pintura flamenga.

 
Manuscrito

    Durante o século XII e até o século XV, a arte ganhou forma de expressão também nos objetos preciosos - feitos em marfim, ouro, prata e decorados com esmalte - e nos ricos manuscritos ilustrados.
    Esses manuscritos eram feitos em várias etapas e dependiam do trabalho de várias pessoas. Primeiro, era necessário curtir de modo especial a pele de cordeiros ou vitelas. Essa pele curtida chamava-se velino e era usada no lugar do papel dos livros atuais. Nas oficinas dos mosteiros ou nos ateliês de artistas leigos, os trabalhadores cortavam as folhas de velino no tamanho em que seria o livro. A seguir, os copistas dedicavam-se à transcrição de textos sobre as páginas já cortadas. Ao realizar essa tarefa, deixavam espaços para que os artistas fizessem as ilustrações, os cabeçalhos, os títulos ou as letras maiúsculas com que se iniciava um texto. Esse trabalho decorativo ficou conhecido com o no­me de iluminura.
Nessa época foi comum também a produção de uma bíblia chamada' 'moralizada'', pois era diferente das anteriores: apresentava apenas algumas passagens dos textos sagrados  e não o texto integral, como as demais, acompanhadas de muitas ilustrações feitas por artistas mi­niaturistas.


Graça Proença - História da Arte